terça-feira, 29 de julho de 2014

55 anos das BRIZOLETAS

55 anos das BRIZOLETAS
(Letras do Tesouro do Estado do Rio Grande do Sul)

Na primeira metade do século XX a carência por educação era evidente no país. Em 1950, cerca de 50% da população brasileira era analfabeta. O índice médio de reprovação nas escolas era de pouco mais de 35% naquela década, conclui-se que, somada a evasão nas escolas estaduais de quase 50%, que mais da metade dos alunos matriculados não concluíam o curso básico.
Em 1959 o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (1922 — 2004) elaborou o Plano de Emergência de Expansão do Ensino Primário que pretendia a escolarização de todas as crianças em idade escolar dos 7 aos 14 anos e a erradicação do analfabetismo, implantando o programa Nenhuma Criança Sem Escola no Rio Grande do Sul que, num primeiro momento, ficou conhecido como o Plano das Duas Mil, em razão da meta governamental de construir duas mil escolas em dois anos. O projeto deu origem à construção dos prédios escolares que se popularizaram como Brizoletas ou as Escolinhas do Brizola. Nos quatro anos do governo Brizola (1959-1963), foram construídos 1.045 prédios escolares, com 3.360 salas de aula e capacidade para 235.200 alunos.
Sem dinheiro no caixa sequer para pagar os funcionários públicos, quem diria para levar adiante os projetos, como o plano da escolarização, Brizola fez como fizeram alguns países, inclusive o Brasil em 1942, em tempos de guerra: Lançou mão de Letras do Tesouro, as chamadas Brizoletas, emitidas com autorização da Lei 3.785, de 30 de julho de 1959, para pagamento de dívidas, inclusive salários atrasados dos servidores e captação de recursos no mercado financeiro. O volume a ser emitido tinha como limite até 10% da receita estadual orçada em cada exercício, com prazo de vencimento de um a cinco anos.

LEI Nº 3785 DE 30 DE JULHO DE 1959
Autoriza a emissão de letras do Tesouro

LEONEL BRIZOLA, Governador do Estado do Rio Grande do Sul,
Faço saber, em cumprimento ao disposto nos artigos 87, inciso II e 88, inciso I da Constituição do Estado, que a Assembléia Legislativa decretou e eu sanciono e promulgo a Lei seguinte:
Art. 1º - É o Poder Executivo autorizado a emitir letras do Tesouro, contra suprimento de numerário, com limite de circulação até 5% da receita orçada em cada exercício.
Art. 2º - Os títulos referidos no artigo anterior serão ao portador, com prazos de resgate fixados mediante decreto do Poder Executivo, com os valores nominais de Cr$ 50,00 (cinquenta cruzeiros); Cr$ 100,00 (cem cruzeiros); Cr$ 200,00 (duzentos cruzeiros); Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros); Cr$ 1 000,00 (mil cruzeiros); Cr$ 5 000,00 (cinco mil cruzeiros); Cr$ 10 000,00 (dez mil cruzeiros); Cr$ 50 000,00 (cinquenta mil cruzeiros); e Cr$ 100 000,00 (cem mil cruzeiros).
Art. 3º - O tipo mínimo de colocação das letras do Tesouro será 94 quando o prazo de resgate for de um ano, obedecendo-se a mesma proporção quando houver variação de prazos.
Art. 4º - As letras do Tesouro de que trata esta lei, não apresentadas para resgate, servirão, pelo seu valor nominal, para pagamento de impostos, taxas e quaisquer dívidas fiscais para com o Estado.
Art. 5º - Os títulos a que se refere a presente lei serão resgatadas nos exercícios de 1959 a 1963.
Art. 6º - O resgate da letras do Tesouro será efetuado pelo Tesouro do Estado, pelo Banco do Rio Grande do Sul S/A. em qualquer de suas agências, e por outros estabelecimentos bancários credenciados pela Fazenda, com os quais fica o Poder Executivo autorizado a firmar os contratos que se fizerem necessários.
Art. 7º - As letras do Tesouro serão assinadas pelo Secretário de Estado dos Negócios da Fazenda, pelo Diretor Geral do Tesouro do Estado e pelo Tesoureiro Geral do Tesouro.
Art. 8º - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação.

PALÁCIO PIRATINI, em Pôrto Alegre, 30 de julho de 1959

Engº Leonel Brizola         João Caruzo      Siegfried Emanuel Heuser
Governador do Estado Secretário do Interior e Justiça      Secretário da Fazenda

As Letras do Tesouro, que podiam ser utilizadas para pagamento de impostos, em pouco tempo conquistaram bom nível de aceitação e chegaram a ser negociadas até por seu valor de face. Houve várias edições posteriores, resgatadas entre um e cinco anos. Mais tarde foram usadas, em agosto de 1961, no movimento da Legalidade. Em 1963, um decreto autoriza nova emissão.

Mesa Redonda Interdisciplinar e Seminário

Como se sustenta o desejo na mulher atual?
- Mesa Redonda Interdisciplinar -

Como as diferentes disciplinas contemporâneas veem a mulher atual?
As novas contingências afetam sua história, suas aspirações, sua independência, seu desejo?
Para discutir essas e outras instigantes questões convidamos poetas, escritores, publicitários, estilistas e psicólogos.
Venham participar e enriquecer nosso debate.

1º de agosto de 2014
das 19h30m às 21h
Museu Júlio de Castilhos, Rua Duque de Caxias, 1205, Porto Alegre.

Participação de:
Cristina Macedo
Mestre em Literaturas da Língua Portuguesa, escritora, poeta, tradutora (de Sylvia Plath, entre outros) e promotora cultural (criadora/apresentadora do SARAU LITERÁRIO ZONA SUL). Membro da Academia Literária Feminina do RS.
Lenita Menda Tornaim
Empresária. Sócia de Lojas TOK (rede de moda jovem feminina presente no Sul do País).
Atuou durante 35 anos na gestão das áreas de criação e produção, marketing e visual merchandising da empresa.
Sonia Martins Sebenelo
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta Individual, Casal e Família, Mestre em Ciências Sociais (Título da tese: Gênero e Poder – Possíveis Contradições no Processo de Emancipação Feminina), Presidente da SPRGS.
Sidnei Schneider
Poeta, ficcionista e tradutor de poesia. Publicou Andorinhas e outros enganos (Dahmer, 2012), Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999), Versos Singelos/José Martí (SBS, 1997) e Poemas 1987-1992 (Artesanal, 1992). 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM, 1995.
Zeca Honorato
Empresário e Publicitário. Diretor de AMA, a menor AGÊNCIA GRANDE do mundo. 

Moderador:
Luiz-Olyntho Telles da Silva

Entrada franca
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2 de agosto
da 9h às 12h no Museu Julio de Castilhos

Como se sustenta o desejo na mulher atual?
Seminário de Ricardo Landeira/2014
Psicanalista com prática na cidade de Montevidéu.
É autor de "A posição do sintoma" (1990), "A direção da cura na clínica lacaniana" (2009) e "Os atos na cura analítica" (2011).
Desenvolve seminários na Argentina, Brasil, Uruguai e Itália há vários anos.
Os pontos tomados em consideração na mesa homônima da véspera
serão abordados no desenvolvimento do seminário.

As inscrições podem ser feitas previamente pelo e-mail
bs.freud@uol.com.br
Informe-se dos valores promocionais em
http://www.bsfreud.com/rl14.html

(Vagas limitados)


quarta-feira, 16 de julho de 2014

ACERVO EM FOCO

COROA BORORO




            Constituída por 2.202 peças, a coleção etnológica do Museu Julio de Castilhos representa 16% do acervo da instituição. Nela encontram-se sobretudo itens relacionados às tradições arqueológicas Sambaqui, Humaitá, Umbu, Vieira, Taquara e Tupiguarani – todas relacionadas ao Estado do Rio Grande do Sul – entretanto também identificam-se peças oriundas de Goiás, Amazonas, Santa Catarina, Pará e Mato Grosso. É do Mato Grosso que se origina uma das peças mais notáveis da coleção: uma coroa elaborada pelos indígenas Bororo.

Dentre os múltiplos grupos indígenas sul-americanos os Bororos destacaram-se no cenário das pesquisas etnológicas devido seu amplo contexto cultural. Uma característica predominante do grupo Bororo é sua dedicação ao ritos cerimoniais – a parte mais importante da vida comunitária - sendo esses marcados pela utilização de danças e adornos materiais. 

O ritual fúnebre, considerado a mais importante cerimônia Bororo, tem grande parte de suas práticas voltadas à figura mais temida pelos nativos da região: a onça-pintada. O animal tem em sua caça e abate um reconhecimento de bravura, e essa caça é estimulada pelas tradições de um complexo ritual. Nele é escolhido um hábil caçador do grupo oposto ao do indígena falecido para ser seu representante - conhecido como aroe maíwu (alma nova) ou iadu (companheiro) - e a ele é atribuída a missão de caçar uma onça-pintada, ato considerado uma forma de vingança pelo indígena falecido, uma vez que a morte é conferida ao espírito maléfico (bópe) e as onças são consideradas bópe. Matar o animal eliminaria o espírito mau, porém não se trata do fim dessa cerimônia: após o abate a carne é distribuída para o consumo e o restante (couro, dentes, garras e ossos) é destinado para a confecção de adornos. O couro é entregue para o indivíduo mais velho da família, e os dentes e garras são fixados em uma estrutura feita de fibra vegetal formando a coroa com a qual o representante presenteia os pais do morto. Assim, com a derrota do bópe está consolidada a vingança pelo falecimento de um membro do grupo Bororo.

O Museu Julio de Castilhos possui duas coroas funerárias Bororo, ambas procedentes do Mato Grosso, tendo a maior as seguintes dimensões: comprimento da haste: 50,0 cm/ comprimento das unhas: 3,0 cm a 4,5 cm/comprimento dos cordões: 49,0 cm a 53,0 cm. Já as dimensões da peça menor são as seguintes: comprimento da haste: 41,0 cm/ comprimento das unhas: 0,8 cm a 2,5 cm/comprimento dos cordões: 52,0 cm a 57,5 cm – ambas as peças adquiridas dos irmãos Antônio e Octacílio Barbedo no ano de 1905.

Curadoria: Suzane Grassmann Külzer

RODA DE TROCA DE SABERES E FAZERES: LIGA DA CANELA PRETA (15/07/2014)






segunda-feira, 16 de junho de 2014

Acervo em foco

“E... outros”:
Representação imagética de José Paulino de Azurenha o Leo Pardo.

O Museu Julio de Castilhos agregou nos seus 111 anos um acervo de aproximadamente 11.600 peças das mais variadas procedências e origens. Entre as várias coleções que compõe esse precioso acervo, sobressai a Iconografia (fotografias, pinturas e desenhos) coleção que tem na sua maioria registros únicos, desconhecidos pela maioria do público visitante e dos pesquisadores. Dentre os registros imagéticos captados pelos fotógrafos da cidade de Porto Alegre do século XIX, destacam-se os Irmãos Barbeitos, que registraram em suas lentes imagens femininas. No século XX  temos como referência registros inéditos importantes para a historiografia, como dois álbuns, totalizando 70 fotografias, do fotógrafo alemão Wolfang Harnisch Jr., intitulado Costumes Gauchescos, que revelam em cada página surpreendentes relatos imagéticos do Rio Grande do Sul na década de 1940. Harnisch Jr registra (sob a encomenda de Getulio Vargas) cidades-interior e a capital -, espaços de prática religiosa, o trabalho nas charqueadas de Bagé e nas minas de pedras preciosas, fachadas de prédios monumentais, e, com maior ênfase, a representação do homem do campo, o gaúcho e seus costumes. Inventariadas e sistematizadas, as fotografias do acervo são fontes para o estudo de sujeitos históricos e os mais diversos grupos.
O registro imagético intitulado Mário Totta e outros torna visível três cronistas e literatos da história rio-grandense, Francisco Antonio Vieira Caldas Junior (centro), Mário Totta (esquerda) Paulino Azurenha (direita). A procedência desta imagem remete-se à doação da família de Mário Totta, no ano de 1974, juntamente com outros objetos pessoais do médico, cronista, romancista e fundador da academia Rio-Grandense de Letras. A raridade deste importante suporte pode ser atribuída à união dos três escritores do cenário cultural porto alegrense, mas, também residem na instigante palavra outros, utilizada para a descrição da peça, no momento da sua catalogação no museu. Quem são eles? Francisco Antonio Vieira Caldas Júnior, ao centro da imagem, e provavelmente sua colocação no registro fotográfico, acima dos demais, remeta-se a um momento onde o seu destaque fosse importante, na fundação de seu jornal Correio do Povo no ano de 1895. Porém, Paulino Azurenha, “clicado” ao lado de Caldas Júnior, com seu corpo estático e olhar direcionado, foi um dos principais redatores do Correio do Povo, e, tem nessa imagem o único registro conhecido de um acervo público. Mas qual foi a trajetória de Paulino Azurenha?
José Paulino de Azurenha ou Paulino Azurenha, nascido homem livre, no ano de 1860 na capital, ainda período de escravidão no Brasil, tornou-se, como outros afrodescendentes, importante protagonista da comunidade afrodescendente portalegrense. Assim como o jornalista Paulino Azurenha, advogados, médicos, tipógrafos, literatos, juízes e engenheiro são sujeitos de uma nova historiografia do pós-abolição, suas trajetórias individuais e coletivas são objeto de vários estudos acadêmicos.
Em 1886, Paulino Azurenha contrai matrimônio com Maria Amelia da Silva na Igreja Nossa Senhora da Madre de Deus, e, tem como padrinho o afrodescendente Aurélio V. de Bittencourt , um dos mais importantes membros das Irmandades de Porto Alegre, articulador e secretário particular de Julio de Castilhos e Borges de Medeiros, e um dos idealizadores da imprensa negra portoalegrense por meio do jornal O Exemplo.
A trajetória de Paulino Azurenha no meio jornalístico dá-se como tipógrafo no Jornal do Commercio, porém, com a fundação por seu companheiro e amigo Caldas Júnior do jornal Correio do Povo, migra para este veículo de informação e torna-se um dos seus mais importantes redatores, assumindo várias vezes o posto de direção na  ausência de fundador. No ano de 1899 assume a coluna O Semanário (Correio do Povo) como seu único cronista, assumindo o pseudônimo de Leo Pardo, que para alguns de seus biógrafos seria uma de afirmação de sua identidade étnica.
Em 1897, escreve com Souza Lobo e Mário Totta, o romance Estrichinina, que versa sobre um pacto de morte sobre dois amantes. Anos após a morte prematura de sua esposa, Paulino Azurenha falece em 1º de julho de 1909, na sua residência na rua Gal. João Manoel n° 58. O desaparecimento, deste jornalista e literato, deixa uma lacuna nas crônicas do Correio do Povo, a sua forma de escrever, com ironia e sagacidade, marcou a vida cultural da pitoresca cidade de Porto Alegre do início do século XX. 

Jane Rocha de Mattos