sexta-feira, 9 de março de 2012

Conhecendo o acervo - "A prisão de Tiradentes"


A prisão de Tiradentes
Antonio Parreiras, 1914
óleo sobre tela, 180x280 cm

TIRADENTES (Fazenda do Pombal, batizado em 12 de novembro de 1746 — Rio de Janeiro, 21 de abril de 1792)
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes foi preso no dia 10 de maio de 1789, na cidade do Rio de Janeiro, onde procurava seguidores para seus planos de independência. Foi vítima de uma cilada, pois não tinha conhecimento que seu companheiro Silvério dos Reis, em 15 de março de 1789, havia delatado a conspiração ao governador de Minas Gerais, o Visconde de Barbacena. O dia de sua execução, 21 de abril, é feriado nacional. A cidade mineira de Tiradentes, antiga Vila de São José do Rio das Mortes, foi renomeada em sua homenagem.

ANTONIO PARREIRAS (Niterói,RJ. 1860 – 1937)
Pintor, desenhista e ilustrador brasileiro. Foi aluno de Jorge Grimm na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro, tornando-se um paisagista dos mais importantes de toda a História da Arte brasileira. No início deste século, Parreiras foi incentivado por Victor Meirelles a dedicar-se à pintura histórica, o que fez com grande desembaraço e sucesso: Proclamação da República de Piratini, Fundação de Niterói, Fundação do Rio de Janeiro, Os Invasores, A Conquista do Amazonas, A Morte de Estácio de Sá, O Missionário, O Poema da Virgem (dedicado a Anchieta), A Chegada de Mem de Sá, O Evangelho nas Selvas, Dias Adorno, Os Primevos, Agonia, A Chegada e A Partida, etc. Parreiras foi um artista muito premiado e também escreveu artigos para os jornais de seu tempo e publicou um livro de Memórias em 1926. A casa onde viveu em Niterói, à Rua Tiradentes, 47, é hoje um Museu que abriga uma parte significativa de sua obra.

A OBRA
A pintura "A prisão de Tiradentes" foi uma encomenda do então Presidente do Estado, Borges de Medeiros, ao pintor, juntamente com outra denominada "Proclamação da República de Piratini", inicialmente colocada no Palácio Piratini.
A obra "A prisão de Tiradentes" foi inicialmente colocada na Biblioteca Pública e mais tarde transferida ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul. A pintura foi entregue ao Museu Júlio de Castilhos através do Ofício nº 46, datado de 4 de fevereiro de 1953 (OFÍCIO, 1953), resultado de permuta com a obra "Remorsos", de Pedro Weingartner.
A pintura histórica de Antônio Parreiras, da qual "A prisão de Tiradentes" faz parte, deve ser entendida como inserida na construção de uma representação da república recém inaugurada no Brasil, que necessitava de heróis para serem seguidos, como exemplos de amor à nação.

CRÍTICAS
O periódico "A Notícia", do Rio de Janeiro, em 18 de fevereiro de 1915, traz uma reportagem sobre a abertura da exposição de Parreiras, onde faz a seguinte citação negativa ao quadro: "Há ainda uma grande tela histórica na exposição que se abre hoje: "A Prisão de Tiradentes". É um quadro sem novidade nenhuma, sem o menor interesse e, em compensação, muito defeituoso." (ABERTURA, 1915, p.01).
O jornal, "O Paiz", também do Rio de Janeiro, alguns dias mais tarde, apresentava um enfoque diferente, com crítica favorável sobre a pintura: "Prisão de Tiradentes" – É um quadro completamente novo para nós. Nunca foi esse momento histórico da vida de Tiradentes tratado por nenhum dos nossos artistas. Em geral o que há sobre Tiradentes em pintura é relativo à sua morte. Jamais Tiradentes se nos foi apresentado sob os costumes, com os quais ele nos é apresentado desta vez, que, por informação que nos deu Parreiras, sabemos que eram dos oficiais do regimento ao qual pertencia Tiradentes. É uma composição serena, calma, sóbria e, sobretudo, de uma naturalidade pasmosa. Não se podia melhor sintetizar o documento histórico, que serviu de base à composição do que fez Parreiras. Esse documento é o auto exame de um bacamarte que se achou ao alferes Joaquim José da Silva Xavier, no qual se acha a descrição minuciosa da prisão de Tiradentes. A figura de Tiradentes é esplendida. A altivez com que ele recebe a ordem de prisão, transmitida pelo alferes do regimento de Estremoz, Francisco Pereira Vidigal, é empolgante e define perfeitamente o tipo moral de Tiradentes. Na atitude de comando do alferes Vidigal se notam ao mesmo tempo a indecisão no cumprimento de seu dever, o respeito pelo homem que ia entregar à justiça. Na figura que, de pernas abertas, fecha a única saída pela qual podia fugir Tiradentes, há simplesmente a manifestação da força bruta, como há de simples curiosidade nos dois soldados que lhe estão atrás. A união desse grupo, que fica no fundo do quadro, com a figura enérgica de Tiradentes, se faz pela repetição de um tom (o azul) e dessa união resulta a unidade que se completa com alguns objetos perfeitamente adequados. Citaremos rapidamente alguns detalhes interessantes da figura de Tiradentes, como a beleza da cabeça, a contração da mão que segura o bacamarte, mão admiravelmente bem desenhada e ainda mais bem construída, a maneira com que foram pousados os pés, a delicadeza e finura de tons de roupa, onde se percebe a espécie do tecido. Quanto à expressão, esta não foi descurada, como o que faz. Veja-se o tapete enrugado, pelo movimento de cólera que pouco antes fizera Tiradentes ao levantar-se para enfrentar quem lhe vinha prender, cólera que, pouco a pouco, foi desaparecendo, sendo substituída pela calma que conservou depois até a morte gloriosa. E tudo isto é magistralmente desenhado e pintado, nós o afirmamos sem temor de contestações. Este quadro de Parreiras é uma página verdadeira da nossa história, executada com um sentimento profundo e um novo saber (ARTES, 1915, p.04).
Roberto Schmitt-Prym